
Por Pedro Henrique — Departamento de historicidade
Em 1119, nove cavaleiros franceses, liderados por Hugues de Payens, deram início a uma iniciativa que logo ganharia proporções inesperadas: nasceu a Ordem dos Pobres Cavaleiros de Cristo do Templo de Salomão — os Templários — com a missão inicial de proteger peregrinos na Terra Santa. A combinação de voto monástico e função militar, além de proteção papal posterior, transformou-os em uma força singular no mapa medieval: guerreiros-religiosos com regras próprias, castelos e, com o tempo, considerável poder econômico.
Ao longo dos séculos XII e XIII, a ordem expandiu suas sedes por toda a Europa e estabeleceu uma rede de propriedades, doações e privilégios que lhes permitiu operar um sistema financeiro rudimentar — empréstimos, custódia de bens e administração de vastas terras. Essa infraestrutura, aliada a uma reputação de disciplina e eficiência militar, fez dos Templários tanto aliados valiosos quanto concorrentes perigosos para monarcas e instituições que cobiçavam recursos e autonomia.
Mas o ocaso foi abrupto. No dia 13 de outubro de 1307, por ordem do rei Felipe IV, o Belo, uma operação coordenada prendeu Templários em todo o reino da França. As acusações — heresia, blasfêmia, práticas obscenas e corrupção — foram amplificadas por interrogatórios e torturas; confissões extraídas sob sofrimento mancharam a imagem da Ordem. Muitos historiadores veem nesta investida um movimento calculado de um monarca profundamente endividado com a própria Ordem, que buscava eliminar um devedor poderoso e apropriar-se de suas riquezas.
O martírio simbólico dessa queda ficou personificado em Jacques de Molay, último Grão-Mestre. Julgado e condenado, Molay foi executado em uma fogueira em Paris em 1314 — data que entrou para o imaginário popular e para a construção de inúmeras lendas posteriores. A narrativa romântica de um Grão-Mestre que lança maldição sobre seus perseguidores contribuiu para a aura mítica em torno dos Templários. Documentos como o chamado “Chinon Parchment” e relatórios de historiadores modernos ajudam a reconstituir os contornos reais daquela crise moral e política.
É justamente desse solo histórico e fragmentado que brotaram teorias e mitos sobre a sobrevivência dos Templários — desde fugas para a Escócia até a suposta origem direta da Maçonaria especulativa. No século XVIII, correntes como a Rite of Strict Observance, liderada por Karl Gotthelf von Hund, afirmaram ter recebido uma transmissão templária secreta; Ramsay, pouco antes, já havia semeado a ideia de que havia uma continuidade simbólica entre crusos e maçons. Contudo, a pesquisa académica moderna considera essas ligações diretas historicamente frágeis: não há evidência documental consistente de que a Ordem do Templo tenha migrado intacta para formar a Maçonaria que conhecemos. O que ocorreu foi uma reelaboração simbólica: maçônicos do século XVIII adotaram e adaptaram imagens, nomes e ideais templários como património moral e ritual.
Por que, então, os Templários continuam a fascinar tanto a maçonaria quanto a cultura popular? A resposta mora menos nas migrações institucionais e mais na força do símbolo. Jacques de Molay e os ideais cavalheirescos — honra, caridade, defesa do fraco — foram ressignificados como arquétipos éticos dentro dos graus mais elevados de ritos como o Rito Escocês Antigo e Aceito. Esses elementos oferecem à Maçonaria imagens poderosas para ensinar virtudes e modelos de conduta: a “cavalaria” passa a ser metáfora da busca pela luz, não da guerra.
Hoje, historiadores sérios distinguem o fato da lenda: os Templários são uma entidade histórica com impacto real — militar, econômico e religioso — e, ao mesmo tempo, uma fonte inesgotável de mitopoiese. Onde faltam documentos, cresce a imaginação; onde há documentos, cresce a interpretação crítica. Para leitores modernos, o convite é duplo: apreciar a epopeia medieval dos Templários pelo que realmente foi — uma ordem com virtudes, excessos e fragilidades — e entender como ideais antigos foram reciclados para construir narrativas simbólicas contemporâneas, em especial dentro das tradições iniciáticas.
Leitura recomendada (selecionada): Malcolm Barber, The Trial of the Templars; Alain Demurger, The Persecution of the Templars; edições críticas do Chinon Parchment e estudos sobre o rito da Estrita Observância. Essas obras ajudam a separar o que é documento do que é mito e mostram como, na história, poder, dinheiro e religião podem gerar tanto glória quanto tragédia.
Ligação com o Rito Escocês Antigo e Aceito (REAA)
Ligação entre os Templários e o REAA: o que os historiadores realmente sustentam
1. Oratória de Ramsay e o cultivo do mito
Um ponto-chave para a disseminação da ideia de descendência simbólica dos Templários na Maçonaria é a oratória de Andrew Michael Ramsay (1737), que sugeriu que os maçons modernos teriam recebido influências dos cavaleiros cruzados e de sociedades militares medievais. Isso não é comprovado documentalmente, mas exerceu forte influência no imaginário maçônico.
2. Estrita Observância e Altos Graus
A Ordem estrita (Strict Observance), criada por Karl Gotthelf von Hund, afirmava ter ligações diretas com uma ordem templária reconstituída. É nesses Altos Graus do REAA que símbolos e títulos inspirados nos Templários aparecem com mais clareza — graus como “Knights of the Temple”, “Knight Kadosh”, etc. Entretanto, embora os rituais e os títulos façam alusões e usem símbolos templários, falta evidência histórica de continuidade ininterrupta.
3. Simbolismo compartilhado: cruz, espada, justiça, martírio
No REAA, os graus elevados mantêm uma forte carga simbólica que remete à imagem de cavaleiros: símbolos de martírio, honra, sacrifício (como o mártir Jacques de Molay), uso da espada simbólica, cruz vermelha, cruz e coroa, etc. Tais símbolos funcionam mais como metáforas éticas e espirituais do que como prova histórica de ligações genealógicas.
4. Historiografia crítica
Historiadores modernos, como Paul Naudon, Michael Winetzki e outros, analisando documentos medievais, registros oficiais,clesial e de monarquia, afirmam que não existem evidências concretas de que a Ordem do Templo tenha sido incorporada como estrutura institucional na Maçonaria. Especialistas veem a relação como simbolismo, ancestralidade imaginada ou construída, não como continuidade factual.
Portanto, ao fim desta investigação:
Não há base histórica confiável para afirmar que a Ordem dos Templários sobreviveu institucionalmente e serviu de matriz organizacional direta para o Rito Escocês Antigo e Aceito.
O que existe de real é uma herança simbólica, ética e imagética: no REAA, e em outros ritos maçônicos de Altos Graus, os Templários são invocados como modelos de virtude — coragem, sacrifício, justiça, lealdade. Esses elementos não provêm de documentos que liguem diretamente ambas as instituições, mas da reinterpretação que a Maçonaria fez durante os séculos XVIII e XIX.
O mito da descendência dos Templários confere à Maçonaria uma aura de antiguidade, gravidade e sacralidade que serve tanto à identidade interna (ritos, graus, símbolos) quanto à narrativa exterior (legitimidade, vínculo com a tradição). É, em última análise, uma construção simbólica que enriquece a experiência iniciática e ética dos maçons, mesmo que não se apoie em prova histórica.



